A violência contra a mulher no Brasil atingiu níveis alarmantes e exige uma resposta urgente e estrutural de toda a sociedade. Dados recentes revelam que, em 2025, foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio no país, representando um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior e o maior número da série histórica desde a tipificação do crime em 2015 . Em 2026, a média aponta para um feminicídio a cada cinco horas e vinte e cinco minutos . Diante desse cenário desolador, é fundamental compreender que a prevenção não pode se limitar apenas à proteção das vítimas e ao endurecimento das leis; é imprescindível atuar na raiz do problema, que está intrinsecamente ligada à forma como educamos nossos meninos e jovens.
A Construção Social da Masculinidade e a Violência
A misoginia e a violência de gênero não são fenômenos isolados ou inatos, mas sim resultados de processos educativos formais e informais que constroem hierarquias rígidas entre o masculino e o feminino. Desde a infância, muitos meninos são socializados para associar a masculinidade à força, ao controle, à invulnerabilidade e à repressão emocional . Enquanto isso, o cuidado, a escuta e a expressão de sentimentos são frequentemente desvalorizados, sendo vistos como características "não masculinas".
Esse modelo de masculinidade tóxica ou hegemônica gera consequências severas. Homens e meninos aprendem a repudiar a vulnerabilidade e a demonstrar domínio sobre os outros para provar sua virilidade. Quando essa lógica entra em choque com uma realidade social em que as mulheres não aceitam mais a submissão, muitos jovens interpretam essa mudança como uma ameaça. A combinação de um ambiente educacional instável, a ausência de trabalho emocional consistente e a reprodução de masculinidades violentas cria um terreno fértil para comportamentos agressivos que, em casos extremos, culminam no feminicídio.
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Indicador de Gênero (Brasil)
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Mulheres
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Homens
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Impacto Social
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Tempo em afazeres domésticos/cuidado
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21,3 horas semanais
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11,7 horas semanais
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Desigualdade na divisão de tarefas
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Consulta médica anual
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82,3%
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69,4%
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Menos enfoque na saúde física
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Frequência de suicídios
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Base (1x)
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3,9 vezes mais frequente
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Efeitos da repressão emocional
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Processos de violência doméstica
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Autores na maioria
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Base da violência de gênero
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Fonte: IBGE (2022) e Pesquisa Nacional de Saúde (2019) citados pelo UNFPA .
O Papel Estratégico da Escola na Desconstrução do Machismo
A escola ocupa um lugar central e estratégico na prevenção da violência de gênero. É no ambiente escolar que crianças e adolescentes constroem referências sobre o que significa "ser homem", frequentemente associando essa identidade à negação da vulnerabilidade. No entanto, a escola também tem o poder de ser um "laboratório social", onde educadores podem mediar debates, atuar como referências éticas e facilitar espaços de escuta .
A pesquisa "Livres para Sonhar? Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas" aponta que 99% dos professores acreditam que a escola deve prevenir a violência baseada no gênero de alguma forma, e 77% desejam receber mais informações sobre o tema . No entanto, a prevenção ao bullying e a cultura da paz são temas muito mais recorrentes do que as questões específicas de equidade de gênero.
Para transformar essa realidade, a escola deve promover masculinidades positivas, ampliando as possibilidades de ser homem e fortalecendo vínculos baseados no cuidado, na corresponsabilidade e no respeito . Isso pode ser feito através de:
Criação de Espaços Seguros de Diálogo: Rodas de conversa e atividades reflexivas que acolham qualquer tipo de fala, permitindo que os meninos expressem suas frustrações e emoções sem julgamentos prévios. O objetivo é entender a origem de certos pensamentos machistas e desconstruí-los.
Pauta Positiva e Benefícios da Equidade: O debate não deve ser pautado apenas pela culpa ou pela violência, mas também pelos benefícios da igualdade de gênero para a sociedade e para os próprios meninos. Ao perceberem que a equidade não é uma ameaça, eles se tornam aliados na construção de um mundo mais justo.
Representatividade Positiva: A introdução de figuras masculinas que representem uma masculinidade menos violenta e mais afetiva. Projetos que promovem conversas entre estudantes mais velhos e mais novos têm se mostrado eficazes em fornecer referências de que é possível ser um garoto admirado sem recair em padrões de gênero ultrapassados .
A Família e a Divisão de Tarefas Dentro de Casa
A prevenção ao feminicídio e a desconstrução da masculinidade tóxica começam em casa. A família é o primeiro espaço de socialização, onde os papéis de gênero são aprendidos e naturalizados no cotidiano.
O ambiente digital atual, dominado por algoritmos que acionam respostas neuroquímicas, potencializa o masculinismo histórico. A misoginia e o discurso de ódio circulam em ambientes virtuais (como a "machosfera"), muitas vezes embalados de forma sutil ou "engraçada", e são reproduzidos por adolescentes em busca de pertencimento . Para enfrentar isso, a casa precisa se tornar um espaço de escuta sensível e amorosidade, um conceito defendido por Paulo Freire que significa colocar o amor na prática diária através do cuidado e da atenção ao que o outro pensa e sente.
Uma casa sem violência, com diálogo e cuidado, cria vínculos com a vida. Nesse ambiente, as crianças e os adolescentes se desenvolvem de forma saudável e aprendem a se relacionar sem dominação. Os pais precisam conhecer o universo dos filhos, suas referências culturais e o que consomem na internet.
Além do diálogo, a família deve atuar de forma prática na desconstrução dos papéis de gênero através da divisão equitativa de tarefas. A desigualdade na distribuição do cuidado dentro de casa ensina aos meninos que o espaço doméstico é uma responsabilidade exclusivamente feminina. Envolver os meninos nas tarefas domésticas, nos cuidados com irmãos mais novos ou com animais de estimação, e em decisões familiares desde cedo é fundamental para formar adultos corresponsáveis e empáticos.
Conclusão
O enfrentamento do feminicídio exige que assumamos a responsabilidade de educar melhor os nossos meninos. Educar um menino para ser gentil, respeitoso, emocionalmente inteligente e corresponsável não é um desrespeito à sua masculinidade, mas sim uma garantia de que ele se tornará um homem que não violenta. A escola, em parceria com a família, deve promover uma pedagogia feminista e antimachista, garantindo que as novas gerações compreendam que a verdadeira força masculina reside na capacidade de cuidar, de respeitar a autonomia do outro e de construir relações baseadas na equidade.