A crescente conscientização sobre as mudanças climáticas e seus impactos cada vez mais visíveis tem gerado um novo desafio para a saúde mental de crianças e adolescentes: a ansiedade climática, também conhecida como ecoansiedade. Este fenômeno é descrito por especialistas como um sentimento de medo, preocupação e angústia relacionado às consequências presentes e futuras da crise ambiental em nosso planeta 1. A percepção de ameaças como desastres naturais, perda de biodiversidade e instabilidade social, aliada a uma sensação de impotência diante das decisões políticas, contribui para um quadro que afeta diretamente o bem-estar e a capacidade de aprendizagem dos estudantes 2.
No Brasil, a situação é particularmente alarmante. Um relatório do Fundo das Nações Unidas pela Infância (UNICEF) revela que 40 milhões de meninas e meninos (60% do total) estão expostos a mais de um risco climático ou ambiental 1. Além disso, eventos extremos, como as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024, deixam traumas profundos. Um estudo realizado no estado mostrou que mesmo estudantes não afetados diretamente pelas inundações apresentaram um aumento significativo nos sintomas de ansiedade, estresse e depressão 1. Curiosamente, a pesquisa também apontou que, quanto mais os alunos sabiam sobre as causas e consequências da crise climática, mais sintomas apresentavam, o que evidencia a necessidade de uma abordagem pedagógica que vá além da simples informação, focando em ação e esperança 1.
Neste contexto, a escola emerge como um espaço fundamental não apenas para a educação ambiental, mas também como um local de acolhimento, escuta e construção de resiliência. Este documento visa oferecer um guia para educadores, com estratégias e atividades práticas para lidar com a ansiedade climática em todos os níveis de ensino, da Educação Infantil ao Ensino Médio, transformando a preocupação em engajamento positivo e construtivo.
Estratégias Fundamentais para o Ambiente Escolar
Antes de aplicar atividades específicas, é crucial que a escola adote uma postura de suporte socioemocional. A abordagem deve ser transversal, envolvendo toda a comunidade escolar na criação de um ambiente seguro e sensível às necessidades dos alunos. Duas estratégias principais se destacam: o acolhimento e a criação de uma cultura de ação comunitária.
Acolhimento, Escuta e a Abordagem Sensível ao Trauma
A base para lidar com qualquer forma de ansiedade é o acolhimento. Conforme destaca a professora Daniela Cardoso, com 20 anos de experiência, "os estudantes precisam estar bem ou se sentirem seguros e acolhidos no espaço escolar para conseguirem aprender. Sentar e escutá-los é quase sempre suficiente" 1. Isso significa criar espaços formais e informais para o diálogo, como rodas de conversa e atendimentos individuais, onde medos, angústias e traumas possam ser expressos sem julgamento.
A abordagem das Escolas Sensíveis ao Trauma, que compreende como as experiências adversas impactam o desempenho acadêmico e os relacionamentos, é particularmente relevante. A ideia não é que a escola trate o trauma, mas que o reconheça como uma barreira à aprendizagem e adapte suas práticas pedagógicas 2. Isso envolve formar educadores para serem "conscientes, informados, responsivos e, sobretudo, sensíveis ao trauma", como aponta a pesquisadora Carolina Ziebold 2.
Da Impotência à Ação: Construindo uma Comunidade Ativa
O sentimento de impotência é um componente central da ansiedade climática. A melhor forma de combatê-lo é através da ação coletiva. A escola deve ser um lugar onde os alunos percebam que não estão sozinhos e que pequenas ações, quando somadas, geram grandes transformações. A psicóloga e pesquisadora da Fiocruz, Jaqueline Assis, afirma que "a escola é o lugar de plantar, simbolicamente e literalmente. Quando os estudantes fazem um projeto ambiental na escola ou na comunidade ou criam hortas, por exemplo, eles veem o meio ambiente mudar e, junto daquela planta, veem seus sonhos, sua esperança crescerem" 1.
Promover projetos práticos e de relevância para a comunidade escolar transforma os alunos de espectadores passivos em agentes de mudança. Essa abordagem não apenas alivia a ansiedade, mas também desenvolve competências essenciais como protagonismo, responsabilidade e pensamento crítico. As atividades devem ser planejadas para que os alunos possam ver resultados tangíveis de seus esforços, fortalecendo a crença em sua própria capacidade de fazer a diferença.
Sugestões de Atividades por Nível de Ensino
A seguir, apresentamos uma série de atividades práticas adaptadas para cada etapa da Educação Básica. O objetivo é trabalhar a educação climática de forma progressiva, respeitando as especificidades de cada faixa etária e focando em abordagens que promovam o bem-estar e o engajamento dos alunos.
Educação Infantil: Conexão Afetiva com a Natureza
Nesta fase, o foco principal não é o problema, mas a criação de um vínculo afetivo e positivo com o meio ambiente. A ansiedade é combatida com segurança, encantamento e a sensação de pertencimento ao mundo natural. Como ressalta a especialista Maria Isabel Amando de Barros, do Instituto Alana, "as crianças têm o direito de se vincular com a natureza a partir do que é bom, do que é belo, com uma experiência afetiva relacionada ao amor mesmo, a apreciação, e não a partir do medo e da ameaça" 3.
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Atividade
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Descrição
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Objetivos Pedagógicos
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Caça ao Tesouro das Cores
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Utilizando uma paleta de cores, as crianças são convidadas a encontrar elementos na natureza que correspondam a cada cor (o verde da folha, o azul do céu, o marrom do tronco).
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Estimular a observação, a percepção sensorial e a identificação de cores, associando-as a elementos naturais.
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Quadro Sensorial Natural
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Criação de um painel com diferentes texturas, sons e formatos encontrados na natureza, como pedras, gravetos, folhas secas e sementes, para que os bebês e crianças pequenas possam explorar livremente.
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Desenvolver os sentidos (tato, audição, visão), a curiosidade e a descoberta de diferentes materiais orgânicos.
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Mascote da Turma: Cuidando de uma Planta
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A turma adota uma muda de árvore nativa como "mascote". A cada semana, um aluno diferente leva a planta para casa com a missão de cuidar dela junto com sua família. O projeto culmina com o plantio da árvore na escola.
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Promover o senso de responsabilidade, o cuidado com os seres vivos, o envolvimento familiar e a compreensão do ciclo da vida.
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Cinedebate Lúdico
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Exibição de filmes como "WALL·E" ou "O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida", seguida de uma roda de conversa simples sobre a importância de cuidar do nosso planeta, com desenhos e brincadeiras.
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Introduzir de forma lúdica e visual temas como poluição e desmatamento, estimulando a empatia e a reflexão inicial.
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Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano): Da Conexão à Compreensão
Nesta etapa, as crianças começam a desenvolver o pensamento mais abstrato. As atividades devem, portanto, começar a conectar o cuidado com a natureza a conceitos mais amplos, como sustentabilidade e responsabilidade coletiva. A abordagem ainda é muito pautada no "fazer", mas já com uma camada de compreensão das consequências de nossas ações.
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Atividade
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Descrição
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Objetivos Pedagógicos
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Horta Escolar e Composteira
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Iniciar um projeto de horta na escola, onde os alunos participam de todo o processo: preparar a terra, plantar, cuidar e colher. A atividade pode ser integrada com a criação de uma composteira para transformar resíduos orgânicos em adubo.
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Desenvolver noções de ciclo de vida, produção de alimentos, responsabilidade e trabalho em equipe. A composteira introduz o conceito de reciclagem e gestão de resíduos.
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Construção de Instrumentos Meteorológicos
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Com materiais recicláveis, os alunos constroem instrumentos simples como um pluviômetro (para medir a chuva) ou uma biruta (para indicar a direção do vento). Eles podem então fazer medições diárias e criar um "diário do tempo".
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Introduzir conceitos básicos de climatologia e meteorologia de forma prática, estimulando a observação sistemática, o registro de dados e a compreensão de fenômenos naturais.
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Exposição sobre os Oceanos
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A turma se divide em grupos para pesquisar um tema relacionado aos oceanos (uma espécie, a poluição por plástico, o aumento do nível do mar) e cria uma pequena exposição com cartazes, maquetes e desenhos para apresentar a outras turmas.
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Estimular a pesquisa, a autonomia, a criatividade e a capacidade de síntese. Promove a conscientização sobre a importância dos ecossistemas marinhos.
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Uso da Literatura e Contação de Histórias
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Utilizar livros e contos que abordem a relação do homem com a natureza, como a cantiga africana "Olelê", que narra a história de uma comunidade que precisa se deslocar quando o rio transborda, para gerar rodas de conversa.
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Desenvolver a empatia, permitindo que os alunos vejam suas próprias experiências e medos refletidos em outras narrativas, e facilitar o diálogo sobre sentimentos complexos.
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Ensino Fundamental II (6º ao 9º ano): Pensamento Crítico e Ação Local
Os pré-adolescentes e adolescentes desta fase já possuem maior capacidade de análise crítica e de compreensão de sistemas complexos. As atividades devem desafiá-los a investigar problemas, propor soluções e entender as dimensões sociais e políticas da crise climática, sempre com foco na ação local e no protagonismo.
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Atividade
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Descrição
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Objetivos Pedagógicos
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Projetos de Divulgação Científica
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Os alunos criam canais de comunicação para a comunidade, como um podcast, um jornal impresso ou um blog, para divulgar informações sobre questões climáticas e ambientais. Eles podem entrevistar moradores e especialistas para investigar problemas do bairro.
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Desenvolver habilidades de pesquisa, comunicação, argumentação e literacia midiática. Promove o protagonismo juvenil e a conexão entre ciência e sociedade.
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Feira de Ciências Climática
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Organizar uma feira de ciências com foco em soluções para a crise climática. Os alunos desenvolvem projetos práticos, desde sistemas de captação de água da chuva até estudos sobre ilhas de calor no bairro, e os apresentam à comunidade.
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Incentivar a pesquisa científica, a criatividade e o pensamento crítico na resolução de problemas. Fortalece o vínculo entre a escola e a comunidade.
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Oficinas de Justiça Climática
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Inspirado em projetos como o do Coletivo Utopia Negra Amapaense 4, a escola pode promover oficinas que discutam o conceito de racismo ambiental e justiça climática, analisando como os impactos da crise climática afetam diferentes grupos sociais de forma desigual.
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Promover uma visão crítica e social da crise climática, desenvolvendo a consciência sobre desigualdade, direitos humanos e a importância de políticas públicas justas.
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Ações Comunitárias em Datas Específicas
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Mobilizar a comunidade escolar para ações práticas em datas como o Dia Mundial sem Carro (organizando uma "bicicletada") ou o Dia Mundial da Limpeza (promovendo um mutirão de limpeza em uma praça ou praia local).
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Gerar engajamento, visibilidade para a causa e um impacto positivo e tangível no ambiente local, transformando a preocupação em ação cívica.
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Ensino Médio: Protagonismo, Política e Projetos de Futuro
No Ensino Médio, os estudantes estão se preparando para a vida adulta, a universidade e o mercado de trabalho. As atividades devem, portanto, conectá-los com as dimensões políticas, econômicas e profissionais da sustentabilidade, incentivando o protagonismo e a criação de projetos com impacto real.
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Atividade
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Descrição
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Objetivos Pedagógicos
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Simulação da COP (Conferência das Partes)
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A turma é dividida em delegações que representam diferentes países ou organizações (ONGs, empresas). Cada grupo pesquisa as políticas climáticas de seu representante e prepara propostas. A atividade culmina em uma simulação de negociação, com discursos e debates.
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Desenvolver habilidades de negociação, oratória, pesquisa e pensamento estratégico. Promove a compreensão da complexidade da geopolítica do clima e da importância dos acordos internacionais.
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Adaptação da Infraestrutura Escolar
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Inspirado no projeto da Escola Rural de Ativismo (ERA) 4, os alunos podem realizar um diagnóstico da própria escola para identificar vulnerabilidades climáticas (ex: calor excessivo, risco de alagamento) e propor soluções de adaptação, como a criação de mais áreas verdes, sistemas de ventilação natural ou captação de água.
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Aplicar conhecimentos de ciências, engenharia e arquitetura em um projeto prático e de impacto direto. Desenvolve o pensamento sistêmico e a capacidade de planejamento.
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Criação de Planos de Desenvolvimento Local
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Emulando a iniciativa da Agenda Realengo 2030 4, os estudantes podem se organizar para criar um "plano de futuro" para o seu bairro ou cidade, mapeando problemas socioambientais e propondo soluções em áreas como mobilidade, saneamento, energia e lazer.
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Estimular o engajamento cívico, a visão de futuro e a compreensão sobre planejamento urbano e políticas públicas. Conecta os alunos com a realidade local e o potencial de transformação social.
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Cinedebate e Análise Crítica da Mídia
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Utilizar plataformas como a Ecofalante Play 3 para exibir documentários e filmes mais complexos sobre a crise climática, seguidos de debates sobre as narrativas apresentadas, os interesses envolvidos e o papel da mídia na formação da opinião pública.
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Aprofundar a análise crítica, a literacia midiática e a capacidade de identificar diferentes perspectivas e discursos sobre um mesmo tema.
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Conclusão: Plantando as Sementes da Esperança e da Ação
Lidar com a ansiedade climática no ambiente escolar não é uma tarefa que se resolve com uma única atividade, mas sim com a construção de uma cultura permanente de acolhimento, diálogo e ação. O papel da escola não é apresentar um futuro apocalíptico, o que apenas agravaria o sentimento de angústia, mas sim fornecer as ferramentas para que os estudantes possam se tornar cidadãos conscientes, críticos e, acima de tudo, esperançosos.
Ao transformar a escola em um laboratório vivo de soluções, onde os alunos podem plantar uma árvore, construir um instrumento, debater políticas ou redesenhar seu próprio espaço, damos a eles um antídoto poderoso contra a impotência: o protagonismo. Cada projeto, por menor que seja, é uma semente de mudança plantada no presente que florescerá em um futuro mais sustentável e resiliente, construído pelas mãos daqueles que, hoje, sentem o peso do mundo em seus ombros.
É fundamental que os educadores também se sintam amparados, buscando formação e trocando experiências para lidar com seus próprios sentimentos em relação à crise climática. Ao caminhar juntos – alunos, professores e comunidade –, a jornada se torna não apenas mais leve, mas também mais potente. A escola, assim, reafirma sua vocação mais nobre: a de ser um espaço de transformação e construção de futuros possíveis.