A autolesão, também conhecida como automutilação não suicida (AMNS), é um comportamento complexo e doloroso que tem se tornado cada vez mais presente no ambiente escolar. Trata-se de um ato deliberado de causar dano ao próprio corpo, mas sem a intenção de cometer suicídio 1. Para o educador, identificar e saber como agir diante dessa situação é um desafio que exige sensibilidade, informação e uma abordagem cuidadosa. Este guia foi criado para oferecer um suporte prático e acessível, capacitando professores e equipes pedagógicas a se tornarem um ponto de apoio fundamental na vida de alunos que estão sofrendo.
A escola, como espaço central de desenvolvimento e socialização, ocupa uma posição privilegiada para identificar os primeiros sinais e iniciar uma rede de apoio que pode mudar o curso da vida de um jovem.
1. O Que é a Autolesão e Por Que Acontece?
A autolesão é, em sua essência, uma tentativa de lidar com uma dor emocional insuportável. Quando um jovem não possui ou não consegue acessar outras estratégias para gerenciar sentimentos como angústia, vazio, raiva, tristeza ou ansiedade, a dor física pode se tornar uma válvula de escape. O ato de se ferir libera substâncias químicas no cérebro, como as endorfinas, que geram uma sensação temporária de alívio ou de estar "vivo" e no controle 3.
É crucial diferenciar a autolesão da tentativa de suicídio. Na autolesão, o objetivo é aliviar a dor emocional, não acabar com a vida. No entanto, é um erro ignorar a gravidade do ato. Pesquisas mostram que a persistência desse comportamento aumenta significativamente o risco de ideação e tentativas de suicídio no futuro 3. Portanto, toda forma de autolesão deve ser tratada como um sério sinal de alerta.
As razões psicológicas que levam um jovem a se autolesionar são multifacetadas. Frequentemente, o ato serve como uma estratégia de regulação emocional, transformando uma dor psíquica difusa em uma dor física, que pode parecer mais concreta e gerenciável. Em outros casos, proporciona uma sensação de controle sobre o próprio corpo quando outras áreas da vida parecem caóticas e incontroláveis. Alguns jovens podem usar a autolesão como forma de autopunição por sentimentos de culpa ou inutilidade, enquanto para outros, é uma maneira desesperada de expressar uma dor profunda que não conseguem verbalizar 3 4.
2. Como Identificar? Sinais de Alerta
Identificar um aluno que se autolesiona requer atenção tanto a sinais físicos evidentes quanto a mudanças sutis no comportamento. Muitas vezes, os jovens se esforçam para esconder as evidências, o que torna o olhar atento do educador ainda mais importante.
Sinais Comportamentais e Emocionais
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Categoria
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Sinais a Observar
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Humor e Emoções
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Tristeza persistente, irritabilidade, apatia, mudanças bruscas de humor, sentimentos de desesperança ou inutilidade.
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Interação Social
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Isolamento de amigos e de atividades em grupo, queda na participação em sala de aula, dificuldade em manter relacionamentos.
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Desempenho Escolar
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Queda abrupta no rendimento, falta de interesse em matérias que antes gostava, dificuldade de concentração.
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Comportamento Geral
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Abandono de hobbies, envolvimento em situações de risco, ausência de planos para o futuro, falas sobre morte ou desesperança.
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Sinais Físicos
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Categoria
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Sinais a Observar
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Lesões
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Cortes, arranhões, queimaduras ou hematomas inexplicáveis, geralmente em locais como braços, pulsos, pernas e abdômen.
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Vestuário
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Uso constante de roupas de manga comprida, calças ou pulseiras largas, mesmo em dias quentes, para esconder as marcas.
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Objetos
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Posse de objetos cortantes como lâminas, cacos de vidro ou agulhas, sem justificativa aparente.
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Desculpas
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Desculpas frequentes para os ferimentos, como "foi o gato" ou "caí", que parecem pouco prováveis.
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3. O Que Fazer? Um Protocolo de Ação para Educadores
Ao suspeitar ou confirmar que um aluno está se autolesionando, é fundamental agir com calma, empatia e seguir um protocolo claro. Sua reação inicial pode determinar se o aluno se sentirá seguro para aceitar ajuda.
Passo 1: Aproxime-se com Empatia e em Particular
•Escolha um momento e local apropriados, onde o aluno se sinta seguro e a conversa possa ser privada.
•Inicie a conversa de forma calma e sem acusações. Use uma linguagem de preocupação, não de julgamento.
•Exemplo: "Tenho notado que você parece um pouco distante ultimamente e estou preocupado(a) com você. Gostaria de conversar sobre como você está se sentindo?"
Passo 2: Ouça Ativamente e Valide os Sentimentos
•Permita que o aluno fale, sem interrupções. O mais importante neste momento é ouvir.
•Valide o sentimento, mesmo que não compreenda o comportamento. A dor dele é real.
•NÃO prometa segredo. Explique, com delicadeza, que a segurança dele é a prioridade e que você precisará envolver outras pessoas para ajudá-lo.
•Exemplo: "Sinto muito que você esteja passando por essa dor tão intensa. Deve ser muito difícil carregar isso sozinho. Estou aqui para te ajudar a encontrar um caminho para se sentir melhor."
Passo 3: Comunique a Gestão da Escola
•Após a conversa, comunique imediatamente a situação à coordenação pedagógica, direção ou ao psicólogo escolar, seguindo o protocolo da sua instituição.
•A responsabilidade pelo caso não é apenas sua. A escola precisa agir de forma institucional para garantir o melhor suporte ao aluno.
Passo 4: Envolvimento dos Pais ou Responsáveis
•A comunicação com a família deve ser feita, preferencialmente, pela equipe gestora ou pelo psicólogo escolar, que são mais treinados para essa abordagem delicada.
•O objetivo é criar uma aliança de cuidado em torno do aluno, e não gerar conflito ou punição em casa.
Passo 5: Encaminhamento para Ajuda Profissional
•O papel da escola é ser uma ponte para o tratamento. Incentive e facilite o encaminhamento do aluno e de sua família para serviços de saúde mental, como psicólogos, psiquiatras ou os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
4. O Que NÃO Fazer
•Não entre em pânico nem reaja com horror: Isso pode assustar o aluno e fazê-lo se fechar.
•Não minimize o problema: Frases como "é só para chamar a atenção" são perigosas e invalidam o sofrimento do jovem.
•Não dê sermões ou puna o aluno: A autolesão é um sintoma de sofrimento, não um ato de rebeldia.
•Não tente resolver tudo sozinho: Acione a rede de apoio da escola e os serviços de saúde.
5. Recursos de Apoio
•Centro de Valorização da Vida (CVV): Oferece apoio emocional gratuito e sigiloso 24 horas por dia. Ligue 188 ou acesse www.cvv.org.br.
•Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): Unidades do SUS que oferecem atendimento especializado em saúde mental. Procure o CAPS mais próximo.
•Unidades Básicas de Saúde (UBS): A equipe de saúde da família pode fazer o acolhimento inicial e o encaminhamento necessário.
Conclusão
Lidar com a autolesão de um aluno é uma das situações mais delicadas que um educador pode enfrentar. No entanto, sua posição de confiança e sua presença diária na vida do jovem fazem de você uma peça-chave na identificação e no combate a esse sofrimento. Ao agir com empatia, informação e responsabilidade, você não apenas ajuda a garantir a segurança do aluno, mas também abre uma porta para a recuperação e a redescoberta de uma vida com mais esperança e bem-estar.