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Guia para Pais: Quando Seu Filho se Autolesiona – O Que Fazer?

Descobrir que seu filho está se autolesionando é uma experiência devastadora. Sentimentos de culpa, medo, raiva e confusão são naturais. Você pode estar se perguntando: "Como não percebi?" ou "O que fiz de errado?" A verdade é que a autolesão não é culpa sua. É um sinal de que seu filho está enfrentando uma dor emocional tão intensa que não consegue gerenciar de outras formas.
Este guia foi criado para ajudá-lo a entender o que está acontecendo, como conversar com seu filho, e quais passos práticos tomar para apoiá-lo neste momento crítico. Lembre-se: você não está sozinho, e há ajuda disponível.

1. Reconhecendo os Sinais

Muitas vezes, os pais não percebem a autolesão até que seja tarde demais. Seu filho pode estar se esforçando para esconder as evidências. Aqui estão os sinais que você deve observar:

Sinais Físicos

Cortes, arranhões ou queimaduras em braços, pulsos, pernas, abdômen ou outras partes do corpo, geralmente em padrões ou linhas
Cicatrizes novas ou antigas sem explicação plausível
Roupas inadequadas para o clima – mangas compridas em dias quentes, calças compridas no verão, pulseiras largas ou fitas usadas constantemente para cobrir os braços
Ferimentos que o adolescente tenta explicar de forma vaga – "caí", "foi o gato", "bati sem querer"
Posse de objetos cortantes – lâminas de barbear, cacos de vidro, agulhas, tesouras afiadas – sem justificativa clara

Sinais Comportamentais e Emocionais

Isolamento social – afastamento de amigos, recusa em participar de atividades que antes gostava
Mudanças drásticas de humor – tristeza persistente, irritabilidade, apatia
Queda no desempenho escolar – falta de interesse, dificuldade de concentração, ausências frequentes
Comportamento secreto – passa muito tempo no banheiro ou no quarto, esconde as mãos, evita atividades que exigem expor os braços (como natação ou educação física)
Falas sobre morte ou desesperança – comentários como "ninguém se importa comigo" ou "seria melhor se eu não existisse"
Envolvimento em situações de risco – comportamentos perigosos, uso de substâncias, relacionamentos prejudiciais
Abandono de hobbies e interesses – perda de motivação para atividades que antes o deixavam feliz

2. O Que Fazer Quando Você Descobre

Passo 1: Controle Suas Próprias Emoções

Antes de conversar com seu filho, é essencial que você processe suas próprias emoções. Você pode estar em choque, raiva ou pânico, mas seu filho precisa sentir que você está no controle e que está seguro com você. Se necessário, converse com um amigo de confiança, procure um terapeuta ou ligue para uma linha de apoio para pais. Você não precisa resolver isso sozinho.

Passo 2: Escolha o Momento e o Local Certos

Escolha um momento em que ambos estejam calmos e descansados, não durante uma discussão ou quando há pressa
Procure um local privado onde ninguém os interrompa
Evite fazer isso na frente de irmãos ou outras pessoas
Não confronte seu filho em público ou na escola

Passo 3: Inicie a Conversa com Empatia e Sem Julgamento

Use uma linguagem de preocupação, não de acusação. Seu filho já se sente culpado e envergonhado; ele não precisa de mais julgamento.
O que dizer:
"Notei algumas coisas que me preocupam e gostaria de conversar com você sobre como você está se sentindo."
"Vi esses ferimentos nos seus braços e estou muito preocupado(a) com você. Quero entender o que está acontecendo."
"Você tem sido diferente ultimamente e percebi que você está sofrendo. Quero ajudar. Posso conversar com você sobre isso?"
O que NÃO dizer:
"Por que você faria isso consigo mesmo?" (Soa como acusação)
"Isso é loucura! Você precisa parar agora!" (Gera vergonha e defensividade)
"É só para chamar atenção?" (Minimiza o sofrimento)
"Você é tão egoísta!" (Culpa e rejeição)

Passo 4: Ouça Ativamente

Deixe seu filho falar sem interrupções
Não tente resolver o problema imediatamente
Valide seus sentimentos, mesmo que não compreenda o comportamento
Use frases como: "Entendo que você está sofrendo muito" ou "Vejo que isso é importante para você e que você está passando por algo difícil"
Faça perguntas abertas: "Como você tem se sentido?", "O que te levou a fazer isso?", "Há quanto tempo isso está acontecendo?"

Passo 5: Expresse Seu Amor e Preocupação

Deixe claro que você o ama e que está preocupado com sua segurança. Seu filho pode estar com medo de sua reação; mostre que você está do lado dele, não contra ele.
"Eu te amo muito e estou aqui para você."
"Estou preocupado(a) com você, mas vamos encontrar uma forma de você se sentir melhor."
"Isso não é sua culpa, mas precisamos de ajuda profissional para você lidar com esses sentimentos."

Passo 6: Não Prometa Segredo

Explique com delicadeza que você não pode guardar esse segredo porque a segurança dele é sua prioridade. Você precisará envolver profissionais de saúde mental e, possivelmente, a família.
"Não posso prometer que vou guardar isso em segredo, porque você é muito importante para mim e eu preciso garantir que você esteja seguro. Vamos procurar ajuda juntos."

3. Criando um Ambiente Seguro em Casa

Remova Objetos Perigosos

Guarde facas afiadas, lâminas de barbear, tesouras e outros objetos cortantes em local seguro
Remova vidros quebrados ou cacos
Guarde medicamentos sob chave
Se houver armas de fogo em casa, certifique-se de que estão trancadas e inacessíveis

Mantenha a Comunicação Aberta

Reserve tempo regularmente para conversar com seu filho, sem pressão ou agenda
Mostre interesse genuíno em sua vida
Valide seus sentimentos, mesmo quando discordar de suas ações
Evite sermões ou críticas constantes

Reduza Fatores de Estresse

Ajuste expectativas sobre desempenho escolar ou atividades extracurriculares
Crie momentos de relaxamento em família
Encoraje atividades que tragam alegria (mesmo que pequenas)
Limite o tempo de tela e monitore o conteúdo nas redes sociais

Cuide de Si Mesmo

Você não pode cuidar bem de seu filho se estiver exaurido ou em crise. Procure apoio para você também – seja através de terapia, grupos de apoio para pais, ou conversas com amigos de confiança.

4. Buscando Ajuda Profissional

A autolesão é um sintoma de sofrimento emocional profundo e requer intervenção profissional. Não tente resolver isso sozinho.

Quando Procurar Ajuda

Imediatamente: Se seu filho fez ameaças de suicídio, tem ferimentos graves, ou você sente que ele está em perigo iminente
Nos próximos dias: Se você confirmou autolesão ou suspeita fortemente
Regularmente: Mesmo que o comportamento pareça ter parado, continue com acompanhamento profissional

Profissionais que Podem Ajudar

Profissional
O Que Faz
Psicólogo
Oferece terapia para ajudar seu filho a identificar emoções, desenvolver estratégias de coping e resolver conflitos.
Psiquiatra
Avalia se há transtornos mentais (depressão, ansiedade, transtorno bipolar) e pode prescrever medicamentos se necessário.
Pediatra
Faz avaliação inicial, identifica sinais de alerta e encaminha para especialistas.
Terapeuta Familiar
Trabalha com toda a família para melhorar a comunicação e resolver dinâmicas prejudiciais.

Serviços Disponíveis no Brasil

Centro de Valorização da Vida (CVV): Apoio emocional gratuito e sigiloso 24 horas. Ligue 188 ou acesse
Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): Unidades do SUS que oferecem atendimento especializado em saúde mental. Procure o CAPS mais próximo de você
Unidades Básicas de Saúde (UBS): Faça uma consulta com o pediatra ou clínico geral para avaliação inicial e encaminhamento
Pronto-Socorro: Se houver risco iminente de suicídio ou ferimentos graves, procure o pronto-socorro mais próximo

5. Sinais de Alerta para Risco de Suicídio

Embora a autolesão não signifique automaticamente pensamento suicida, é importante estar atento a sinais de que o risco aumentou:
Falas sobre morte ou desejo de "desaparecer"
Despedidas ou comportamento como se estivesse se preparando para partir
Aumento súbito na autolesão ou ferimentos mais graves
Isolamento total de amigos e família
Regresso repentino a um estado calmo após período de depressão (pode indicar que tomou uma decisão)
Busca por meios letais (pesquisas sobre métodos de suicídio, acesso a medicamentos, armas, etc.)
Se você observar esses sinais, procure ajuda profissional imediatamente ou ligue para 188 (CVV).

6. O Que NÃO Fazer

Não ignore ou minimize: Ignorar o problema não vai fazer desaparecer
Não culpe seu filho: Ele já se sente culpado; adicionar mais culpa piora as coisas
Não culpe a si mesmo: Você não causou isso, e você não é responsável por "curar" seu filho sozinho
Não force seu filho a parar: Punição ou ameaças não funcionam e podem piorar a situação
Não tente ser o terapeuta: Você é o pai/mãe, não o profissional de saúde mental
Não fale sobre isso com toda a vizinhança: Respeite a privacidade de seu filho
Não abandone a esperança: Com apoio adequado, muitos adolescentes superam a autolesão

7. Cuidando de Si Mesmo

Ser pai/mãe de um adolescente que se autolesiona é estressante. Você pode sentir culpa, medo, raiva ou até ressentimento. Esses sentimentos são normais.
Procure apoio profissional para você também
Conecte-se com outros pais que estão passando pela mesma situação
Pratique autocuidado – durma bem, coma adequadamente, faça exercício
Estabeleça limites saudáveis – você não pode sacrificar sua própria saúde mental
Lembre-se de que você está fazendo o melhor que pode

Conclusão

Descobrir que seu filho está se autolesionando é assustador, mas há esperança. Com apoio profissional, comunicação aberta e amor incondicional, muitos adolescentes conseguem superar esse comportamento e encontrar formas mais saudáveis de lidar com suas emoções.
Você não é um pai/mãe ruim. Você está aqui, procurando ajuda e informação, o que já é um grande passo. Confie em profissionais de saúde mental, mantenha a comunicação aberta com seu filho, e lembre-se de que a recuperação é possível.

Recursos de Apoio Rápido

Recurso
Contato
Disponibilidade
Centro de Valorização da Vida
188 (ligação gratuita)
24h, todos os dias
SAMU
192
24h (emergências)
Pronto-Socorro
Procure o mais próximo
24h
Disque Denúncia
100
24h (para abuso/negligência)
Este guia foi elaborado com base em informações de fontes como a Sociedade Brasileira de Pediatria, Hospital Santa Mônica, Instituto Pensi e Ministério da Saúde.

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