O mutismo seletivo é amplamente compreendido como um transtorno de ansiedade que impede a criança de falar em determinados contextos sociais. No entanto, para além da ansiedade visível, o silêncio pode ter uma função mais profunda e simbólica. Sob uma ótica psicodinâmica, o mutismo pode ser a manifestação de um conflito não resolvido, a expressão de algo que não pode ser dito. A criança, em seu silêncio, pode estar atuando como a guardiã de um segredo familiar, uma tensão latente ou um trauma não elaborado que permeia o sistema familiar 1 2.
Este texto explora a complexa relação entre o mutismo seletivo e a dinâmica do "segredo que não pode ser dito", oferecendo uma nova perspectiva para pais e educadores e fornecendo orientações sobre como criar um ambiente que não apenas tolere o silêncio, mas que ajude a desvendar e curar suas raízes.
O Silêncio como Sintoma e Proteção
Na teoria psicodinâmica, um sintoma nunca é arbitrário; ele carrega um significado. O mutismo seletivo pode ser interpretado como uma solução de compromisso para um conflito interno insuportável. A criança pode, inconscientemente, temer que, ao falar, possa revelar algo que ameace a estabilidade de sua família 3.
O medo da criança muda é o de trair a família, revelando inadvertidamente segredos familiares. O silêncio da criança protege a família da exposição externa. 4
Este "segredo" não precisa ser um fato concreto e oculto, como um caso de infidelidade ou um crime. Muitas vezes, refere-se a sentimentos e tensões que não são verbalizados na família: raiva não expressa, luto não vivido, hostilidade velada entre os pais, ou uma história de trauma que todos sabem, mas sobre a qual ninguém fala. A criança, sendo o membro mais sensível do sistema, absorve essa atmosfera e, através do sintoma, expressa o indizível. O silêncio se torna uma lealdade à regra implícita da família: "Sobre isso, não se fala" 2.
O mutismo, nesse contexto, serve a um duplo propósito:
1.Proteger a Família: Mantém o equilíbrio, ainda que disfuncional, ao não expor o conflito latente.
2.Proteger a Criança: Evita a retaliação (real ou imaginária) que poderia advir da revelação do segredo, ou a culpa por ter "traído" a família.
Sinais de Alerta: Quando o Mutismo Pode Estar Relacionado a um Segredo
Nem todo mutismo seletivo está vinculado a um segredo familiar, mas alguns sinais podem indicar essa dinâmica:
•Ansiedade desproporcional em relação a temas específicos: A criança pode ficar particularmente tensa quando certos assuntos são mencionados (ex: família, casa, um membro específico da família).
•Padrões de comunicação familiar restritivos: A família evita falar sobre emoções, conflitos ou eventos difíceis. Há uma regra implícita de "não falar sobre isso".
•Comportamentos contraditórios: A criança é extremamente comunicativa em casa, mas o silêncio na escola é absoluto e rígido, sem graduações.
•História de trauma ou luto não elaborado: Eventos significativos (morte, separação, violência doméstica, abuso) que não foram processados pela família.
•Temas recorrentes no brincar: Brincadeiras que envolvem segredos, esconder-se, personagens sem voz ou situações de perigo que não podem ser reveladas.
A presença desses sinais não é um diagnóstico, mas um convite para uma investigação mais profunda com o auxílio de um profissional qualificado.
Como os Pais Podem Ajudar
Abordar o mutismo sob essa ótica exige uma mudança de foco: de "fazer a criança falar" para "compreender o que o silêncio está protegendo". Isso não se trata de culpar os pais, mas de convidá-los a um processo de autoconhecimento e cura familiar.
1. Criar um Ambiente de Segurança Emocional: O primeiro passo é construir um lar onde todas as emoções são bem-vindas e podem ser expressas. Isso significa que os próprios pais devem se sentir à vontade para falar sobre seus sentimentos — tristeza, raiva, medo — de forma saudável. Quando a criança percebe que emoções difíceis não desestabilizam a família, ela se sente mais segura.
2. Buscar Terapia Familiar: O mutismo como guardião de um segredo raramente é resolvido com intervenções focadas apenas na criança. A terapia familiar é fundamental. Um terapeuta pode ajudar a família a identificar e nomear as dinâmicas inconscientes e os conflitos não ditos em um ambiente seguro. É no espaço terapêutico que o "segredo" pode ser falado pelos adultos, aliviando a criança do fardo de carregá-lo sozinha.
3. Validar sem Pressionar: Evite interrogar a criança ou pressioná-la a revelar o que a aflige. Em vez disso, valide sua dificuldade. Frases como "Eu vejo que é muito difícil para você falar agora, e tudo bem" são mais eficazes do que "Por que você não fala?". A validação reduz a ansiedade e comunica aceitação incondicional.
4. Observar o Brincar Simbólico: A criança frequentemente expressa através do brincar aquilo que não consegue verbalizar. Observe os temas de suas brincadeiras. Personagens que se escondem, que não têm voz, ou que guardam tesouros podem ser uma representação simbólica de seu conflito interno. Compartilhar essas observações com um terapeuta pode ser muito valioso.
Como a Escola Pode Ajudar
A escola é o principal palco onde o mutismo se manifesta, e os educadores têm um papel crucial em não reforçar o sintoma.
1. Adotar uma Perspectiva Compreensiva: É vital que a equipe escolar compreenda que o mutismo não é um ato de desafio ou má vontade. Treinamentos que abordem as raízes psicodinâmicas do sintoma podem ajudar os professores a desenvolverem uma postura mais empática e menos ansiosa em relação ao silêncio do aluno.
2. Ser um "Continente" para a Ansiedade: A função do educador é ser uma figura de estabilidade. Em vez de se sentir pressionado a "fazer o aluno falar", o professor deve se concentrar em criar um ambiente de acolhimento (um "holding environment"), onde o aluno se sinta seguro, mesmo em silêncio. A calma do adulto ajuda a regular a ansiedade da criança.
3. Fomentar a Expressão Não-Verbal: Crie oportunidades para que o aluno se expresse de outras formas. Artes plásticas, desenho, escrita, dança e música são canais poderosos para o conteúdo emocional que não encontra palavras. Valorize essas formas de comunicação como legítimas e importantes.
4. Colaboração Estreita com a Família e Terapeutas: A escola deve ser uma parceira ativa no processo terapêutico. A comunicação regular com os pais e o terapeuta da criança é essencial para alinhar estratégias. Se a família está em terapia trabalhando um conflito, a escola precisa saber como apoiar a criança durante esse processo, que pode, inicialmente, até intensificar a ansiedade.
Conclusão
Ver o mutismo seletivo através da lente do "segredo que não pode ser dito" transforma nossa abordagem. A criança deixa de ser vista como o "problema" e passa a ser compreendida como o portador de um sintoma que fala por todo um sistema familiar. Para pais e educadores, o desafio é aprender a escutar o silêncio. Ao criar um ambiente de segurança emocional, validar a experiência da criança e trabalhar para desvendar as tensões subjacentes, abrimos um caminho para que o segredo possa ser elaborado pelos adultos, e a criança, finalmente, seja libertada do fardo de ser a sua guardiã silenciosa.