O ambiente escolar é, por excelência, um espaço de formação e desenvolvimento. No entanto, para além do aprendizado acadêmico, a escola desempenha um papel fundamental na construção de hábitos que perdurarão por toda a vida, incluindo a relação dos alunos com a alimentação. Atualmente, essa relação está em crise, marcada pelo consumo crescente de alimentos ultraprocessados (UPFs), que se tornaram um dos principais vetores para o aumento da obesidade infantil e uma série de problemas de saúde física e mental associados. Este texto, direcionado a educadores, visa aprofundar a compreensão sobre esses impactos e destacar o potencial transformador da comunidade escolar na promoção de um futuro mais saudável para crianças e adolescentes.
Os alimentos ultraprocessados — formulações industriais ricas em açúcares, gorduras, sal e aditivos sintéticos, como corantes e conservantes — são projetados para serem hiperpalatáveis e de baixo custo, o que facilita sua inserção massiva na dieta infantil. O consumo desses produtos está diretamente ligado a um empobrecimento nutricional da dieta e ao desenvolvimento de doenças crônicas. Estudos indicam que o Brasil pode atingir a alarmante marca de 50% de crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesidade até 2035 . Dados nacionais já revelam um cenário preocupante: em 2019, 10,1% das crianças brasileiras menores de cinco anos já apresentavam obesidade . Essa condição na infância é um forte preditor para a obesidade na vida adulta e aumenta significativamente o risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos .
|
Doença/Condição
|
||
|
Obesidade
|
Alto teor calórico e baixo valor nutricional promovem ganho de peso.
|
,
|
|
Diabetes Tipo 2
|
O consumo excessivo de açúcar e o ganho de peso aumentam a resistência à insulina.
|
|
|
Doenças Cardiovasculares
|
Elevados níveis de gorduras saturadas, sódio e açúcares contribuem para a hipertensão e outros fatores de risco.
|
|
|
Doenças Inflamatórias
|
Aditivos e a composição geral dos UPFs estão associados a processos inflamatórios crônicos no corpo.
|
|
|
Deficiências Nutricionais
|
A substituição de alimentos in natura por UPFs leva à baixa ingestão de vitaminas, minerais e fibras essenciais.
|
O impacto de uma dieta inadequada, no entanto, transcende a saúde física. O aumento do peso corporal em crianças e adolescentes frequentemente os expõe a um ambiente de estigmatização e preconceito, conhecido como gordofobia. A escola, que deveria ser um porto seguro, pode se tornar um palco para o bullying, a exclusão e a discriminação. Pesquisas apontam que crianças com sobrepeso têm 75% mais chances de serem vítimas de bullying, uma forma de violência que deixa cicatrizes profundas na saúde mental .
Essa discriminação baseada no peso está associada a consequências devastadoras, como o desenvolvimento de quadros de depressão, ansiedade, isolamento social, baixa autoestima e até mesmo pensamentos suicidas . O estigma do peso cria um ciclo vicioso perigoso: a angústia emocional pode levar a um aumento da ingestão de alimentos calóricos como forma de conforto, resultando em mais ganho de peso e, consequentemente, mais estigma. Além disso, a vergonha e o desconforto podem fazer com que o aluno evite atividades físicas e interações sociais, aprofundando seu isolamento e comprometendo seu desempenho e frequência escolar .
Diante deste cenário complexo, a escola emerge como uma arena privilegiada para a intervenção. Crianças e adolescentes passam grande parte de seu dia no ambiente escolar, um período decisivo onde se formam valores e rotinas. A regulação do que é vendido e servido nas escolas tem um potencial transformador. Um estudo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) demonstrou que a proibição da venda de ultraprocessados e bebidas adoçadas nas escolas pode reduzir o consumo desses itens em até 25% e 8%, respectivamente, enquanto aumenta a ingestão de água e frutas . Essa mudança, aparentemente simples, pode levar a uma queda de quase 9% na prevalência de obesidade infantil.
Reconhecendo essa importância, políticas públicas começam a ser desenhadas, como o Decreto Federal nº 11.821/2023, que orienta a limitação da venda de UPFs nas escolas. Contudo, é crucial que educadores e gestores não esperem passivamente por leis, mas atuem proativamente para criar um ambiente alimentar saudável e acolhedor. As estratégias incluem:
1.Educação Nutricional Integrada: Incorporar o tema da alimentação saudável ao currículo de forma transversal e prática, envolvendo os alunos no planejamento de refeições, na criação de hortas escolares e em atividades que desmistifiquem os alimentos ultraprocessados.
2.Combate Ativo à Gordofobia: Implementar políticas de tolerância zero ao bullying por peso. Promover uma cultura de respeito à diversidade de corpos, focando em comportamentos saudáveis em vez de no peso na balança. O diálogo aberto sobre o estigma e seus efeitos é o primeiro passo para combatê-lo.
3.Transformação do Ambiente Alimentar: Tornar as opções saudáveis as mais atraentes e acessíveis. Isso pode ser feito por meio de pratos coloridos, alimentos cortados em formatos divertidos e o envolvimento dos alunos na preparação, como sugere o professor José Vicente Spolidoro .
4.Engajamento da Comunidade: A mudança de hábitos é mais eficaz quando envolve toda a comunidade. Promover oficinas e enviar materiais informativos para pais e responsáveis sobre a importância da alimentação saudável e os riscos dos ultraprocessados fortalece a coerência entre o que é ensinado na escola e o que é praticado em casa.
O desafio é grande, mas o papel do educador como agente de mudança é ainda maior. Ao abordar a crise dos alimentos ultraprocessados com a seriedade que ela exige — considerando suas facetas físicas, mentais e sociais —, a escola não apenas cumpre sua função educacional, mas também protege ativamente a saúde e o bem-estar de uma geração inteira, capacitando-a a fazer escolhas mais conscientes e a construir um futuro mais saudável e justo para todos.