Encontrar um objeto que não pertence ao seu filho na mochila ou no quarto dele pode ser uma experiência desconcertante para qualquer pai ou mãe. A mente é imediatamente inundada por uma série de perguntas e preocupações: “De onde veio isso?”, “Será que ele pegou de alguém?”, “Isso é um sinal de algo mais sério?”. Embora a reação inicial possa ser de alarme, é fundamental abordar a situação com calma, compreensão e uma perspectiva educacional, em vez de punitiva.
O Desenvolvimento da Noção de Propriedade
Para compreender por que uma criança pode pegar algo que não é seu, é crucial considerar seu estágio de desenvolvimento. A percepção sobre posse, partilha e o que é certo ou errado evolui significativamente ao longo da infância.
| Faixa Etária | Características do Desenvolvimento | Implicações no Comportamento |
| Até 3 anos | A criança ainda não possui uma distinção clara entre “meu” e “do outro”. O egocentrismo é uma característica natural desta fase. | O ato de pegar um objeto é guiado pelo desejo imediato, não por uma intenção maliciosa de roubar. A criança simplesmente quer algo e o pega. |
| 3 a 7 anos | A noção de propriedade começa a se desenvolver, mas a criança ainda pode ter dificuldade em separar a fantasia da realidade. A empatia está em construção. | A criança pode “emprestar” objetos sem pedir ou pegar algo que admira. É uma fase de teste de limites e de aprendizado sobre as regras sociais. |
| A partir de 7-9 anos | A criança já compreende plenamente o conceito de propriedade e que pegar algo de outra pessoa é errado. A consciência moral está mais estabelecida. | O ato de pegar algo que não lhe pertence nesta fase pode ter motivações mais complexas, que vão desde a pressão de colegas até questões emocionais mais profundas. |
É importante notar que, especialmente nas fases iniciais, esses comportamentos são, em grande parte, parte do processo normal de crescimento e aprendizado.
As Raízes Psicológicas do Comportamento
Quando uma criança, especialmente após os primeiros anos da infância, persiste em pegar objetos que não são seus, o comportamento pode ser um sintoma de questões emocionais subjacentes. Não se trata apenas do objeto em si, mas do que ele representa para a criança.
Diversos fatores psicológicos podem estar em jogo:
- Carência Afetiva: A psicóloga Ana Cássia Maturano aponta que o comportamento pode ser uma tentativa de suprir a falta de atenção, carinho e proximidade dos pais. O objeto se torna um substituto simbólico para o afeto desejado.
- Busca por Limites: Em alguns casos, a criança pode estar, inconscientemente, testando os limites estabelecidos pelos pais, buscando uma reação que reforce as regras e a segurança.
- Baixa Autoestima: Uma criança que se sente inadequada ou com poucos amigos pode pegar objetos para “comprar” a amizade de colegas ou para se sentir mais poderosa e confiante.
- Chamado de Atenção: O ato de pegar algo e a consequente reação dos pais, mesmo que negativa, garante que a criança receba atenção, algo que ela pode sentir que lhe falta no dia a dia.
Em uma minoria de casos, o comportamento pode ser um sinal de cleptomania, um transtorno do controle dos impulsos que pode se manifestar na infância. Caracteriza-se pelo furto impulsivo, não motivado pela necessidade do objeto, mas por uma ansiedade que é aliviada temporariamente pelo ato.
Orientações Práticas para os Pais
A forma como os pais reagem ao descobrir o objeto é crucial para o desfecho da situação. Uma abordagem calma e educativa é sempre mais eficaz do que a punição severa.
- Mantenha a Calma e Converse em Particular: Evite reações explosivas ou acusações. Chame a criança para uma conversa privada, sem humilhações ou “punição pública”. Use uma linguagem apropriada para a idade, evitando termos como “ladrão” ou “roubo”, especialmente com os mais novos. Prefira frases como “pegar algo sem permissão”.
- Investigue a Origem do Objeto: Procure entender como o objeto foi parar com seu filho. Foi uma troca com um colega? Ele encontrou? Ele pegou escondido? Ouça a versão da criança sem interromper, mesmo que suspeite que ela não esteja dizendo toda a verdade.
- Foque na Empatia e nas Consequências: Ajude a criança a se colocar no lugar da outra pessoa. Pergunte: “Como você se sentiria se alguém pegasse seu brinquedo favorito sem pedir?”. Explique que a pessoa que perdeu o objeto pode estar se sentindo triste ou chateada.
- Incentive a Devolução e o Pedido de Desculpas: O passo mais importante é a reparação. A criança deve devolver o objeto ao dono. O ideal é que ela mesma o faça, se possível, e peça desculpas. Isso ensina sobre responsabilidade e a importância de corrigir os próprios erros.
- Analise o Contexto Emocional: Use a situação como uma oportunidade para se conectar com seu filho. Tente entender se existe alguma necessidade emocional não atendida. Pergunte sobre seus amigos, seus sentimentos na escola e como você pode ajudá-lo.
O que NÃO fazer:
- Não ignorar o fato: Mesmo que a criança seja pequena, o comportamento não deve ser ignorado.
- Não rotular a criança: Evite rótulos como “mentiroso” ou “ladrão”, que podem prejudicar a autoestima da criança e se tornar uma profecia autorrealizável.
- Não aplicar castigos severos ou humilhantes: Punições físicas ou humilhações públicas são ineficazes e podem gerar mais raiva e ressentimento, sem promover um aprendizado real.
Quando se Preocupar e Buscar Ajuda
Embora na maioria das vezes o comportamento seja passageiro, alguns sinais indicam a necessidade de uma avaliação profissional com um psicólogo infantil:
- O comportamento de pegar objetos é frequente e persistente.
- A criança não demonstra remorso ou culpa pelo que fez.
- O ato está associado a outros problemas de comportamento, como agressividade, mentiras compulsivas ou isolamento social.
- A criança rouba objetos de valor ou dinheiro de forma recorrente.
Conclusão
Descobrir que seu filho pegou algo que não lhe pertence é uma oportunidade de ensino, e não de punição. Ao abordar a situação com empatia, diálogo e foco na reparação, os pais podem transformar um momento de preocupação em uma lição valiosa sobre honestidade, respeito e responsabilidade. Mais importante ainda, é uma chance de olhar para além do comportamento e entender as necessidades emocionais do seu filho, fortalecendo o vínculo e a confiança mútua. Lembre-se que, na maioria dos casos, o que a criança realmente busca não é o objeto, mas o afeto e a segurança que só a família pode oferecer.