Este material foi elaborado para oferecer orientação psicológica e educativa a famílias que se encontram diante de uma das situações mais dolorosas e complexas que uma família pode vivenciar: a descoberta de que um filho adolescente tirou a vida de uma mulher — crime tipificado no Brasil como feminicídio. Não há palavras que suavizem adequadamente essa realidade, nem seria ético tentar fazê-lo. O que este material propõe é um caminho de enfrentamento honesto, responsável e comprometido com a vida, com a justiça e com a possibilidade — ainda que difícil — de reconstrução.
Ao longo deste documento, os pais encontrarão informações sobre o que é o feminicídio e suas raízes, sobre as consequências legais e psicológicas do ato cometido, sobre como apoiar o adolescente de forma responsável, e sobre como cuidar da própria saúde mental neste processo. A leitura exige coragem. Mas é justamente essa coragem que poderá fazer diferença na vida do seu filho e, de forma mais ampla, na construção de uma sociedade menos violenta.
Parte I — Compreendendo o Que Aconteceu
1.1 O Que é Feminicídio
O feminicídio é o assassinato de uma mulher em razão de sua condição de gênero. No Brasil, é tipificado como crime hediondo pela Lei nº 13.104⁄2015, que incluiu o feminicídio como qualificadora do homicídio doloso no Código Penal. Ocorre quando a morte é motivada por violência doméstica e familiar, ou por menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
“O feminicídio não é apenas um crime individual. É a expressão mais extrema de um padrão de violência estrutural que coloca a vida das mulheres em posição de menor valor.” — Wânia Pasinato, pesquisadora de políticas públicas de segurança.
É fundamental que os pais compreendam que o feminicídio não é um “acidente”, um “momento de loucura” ou uma “tragédia inevitável”. Ele é o resultado de um processo — frequentemente longo — de desrespeito, controle, possessividade e desumanização da vítima. Reconhecer isso não é punir o filho duas vezes; é o primeiro passo para que ele possa, de fato, compreender o que fez e por quê.
1.2 A Vítima: Uma Vida Que Existia
Antes de qualquer discussão sobre o futuro do adolescente, é necessário que a família reconheça, de forma plena e sem reservas, que uma vida foi tirada. A vítima era uma pessoa com história, sonhos, família, medos e direitos. Ela tinha um nome. Ela merecia viver.
Esse reconhecimento não é uma formalidade. É uma exigência ética e o alicerce de qualquer processo genuíno de responsabilização. Famílias que minimizam o crime, que buscam justificativas para o comportamento do filho ou que colocam a sobrevivência da imagem familiar acima da verdade, inadvertidamente ensinam ao adolescente que a vida de uma mulher tem menos valor — e isso perpetua exatamente o sistema de valores que gerou o crime.
1.3 Por Que Adolescentes Cometem Feminicídio
A prática de violência de gênero por adolescentes não surge do nada. Pesquisas indicam que ela está profundamente enraizada em padrões culturais aprendidos ao
longo da vida, incluindo a exposição a modelos de masculinidade que associam poder, controle e posse às relações afetivas.1 A adolescência é um período em que esses padrões se consolidam e os primeiros relacionamentos afetivo-sexuais são estabelecidos — tornando-a tanto um período de risco quanto uma janela privilegiada para a intervenção.2
Entre os fatores que contribuem para a violência de gênero praticada por adolescentes, destacam-se:
| Fator | Descrição |
| Socialização de gênero | Aprendizado de que homens devem controlar e dominar mulheres |
| Exposição à violência
doméstica |
Testemunhar violência em casa normaliza o
comportamento |
| Cultura do ciúme possessivo | Confusão entre amor e controle, posse e cuidado |
| Baixa tolerância à frustração | Dificuldade em lidar com rejeição, término de
relacionamentos |
| Ausência de modelos
saudáveis |
Falta de referências de relacionamentos respeitosos |
| Influência de grupos e mídia | Conteúdos que reforçam misoginia e objetificação feminina |
| Histórico de violência sofrida | Experiências de abuso ou negligência na própria vida |
Compreender esses fatores não significa absolver o adolescente de sua responsabilidade. Significa entender o solo em que o crime cresceu — para que seja possível, com honestidade, trabalhar para que não volte a acontecer.
Parte II — As Consequências: O Que Esperar
2.1 Consequências Legais para o Adolescente
No Brasil, adolescentes entre 12 e 17 anos que cometem atos infracionais graves — como o feminicídio — estão sujeitos ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei
nº 8.069/1990. O sistema socioeducativo prevê medidas que vão desde advertência até internação em estabelecimento educacional, sendo esta última aplicável em casos de atos infracionais graves com violência ou grave ameaça à pessoa.
A medida socioeducativa de internação pode durar até três anos, com reavaliação a cada seis meses, e o adolescente é liberado compulsoriamente ao completar 21 anos. É importante que os pais compreendam que essas medidas têm caráter pedagógico e socioeducativo, não apenas punitivo — mas isso não significa que sejam brandas ou sem consequências reais para a vida do jovem.
A responsabilização legal é parte do processo de desenvolvimento moral do adolescente. Protegê-lo das consequências de seus atos não é amor — é um obstáculo ao seu crescimento como ser humano.
Além das medidas socioeducativas, o adolescente pode ser responsabilizado civilmente, e os pais podem ser chamados a responder por danos materiais e morais causados à família da vítima. Buscar orientação jurídica especializada em direito da criança e do adolescente é fundamental desde o início do processo.
2.2 Consequências Psicológicas para o Adolescente
O impacto psicológico de ter cometido um crime dessa magnitude é profundo e complexo. O adolescente pode apresentar uma ampla gama de reações, que variam conforme sua estrutura de personalidade, o contexto do crime e o suporte que recebe:
Negação e minimização: “Não foi minha culpa”, “ela me provocou”, “eu não queria isso”
Culpa e vergonha paralisantes: Sentimentos que, sem acompanhamento, podem levar a comportamentos autodestrutivos
Dissociação emocional: Aparente frieza ou indiferença, que não indica falta de impacto, mas mecanismo de defesa
Transtorno de estresse pós-traumático: Flashbacks, pesadelos, hipervigilância
Depressão e ideação suicida: Especialmente em adolescentes com maior capacidade de empatia
Nenhuma dessas reações justifica o crime cometido, mas todas precisam ser acompanhadas por profissional de saúde mental qualificado. O sofrimento do
adolescente é real e merece atenção — não para absolvê-lo, mas para que ele possa atravessar o processo de responsabilização com integridade psicológica.
2.3 Consequências para a Família
A família do adolescente também é profundamente afetada. Pais, irmãos e outros familiares enfrentam um luto particular: o luto pela imagem que tinham do filho, pela família que acreditavam ter, pelo futuro que imaginavam. Ao mesmo tempo, podem experimentar:
Choque e incredulidade diante da revelação
Vergonha social e isolamento
Conflito entre o amor pelo filho e o horror pelo que ele fez
Culpa por possíveis falhas na educação ou na identificação de sinais de alerta Pressão de outros familiares, vizinhos e da mídia
Dificuldades financeiras decorrentes do processo legal
Esses sentimentos são legítimos e precisam ser acolhidos — de preferência em espaço terapêutico. Mas não podem se tornar o centro da narrativa familiar em detrimento do reconhecimento do crime e do sofrimento da família da vítima.
Parte III — Como Apoiar Seu Filho de Forma Responsável
3.1 O Que Apoiar Responsavelmente Significa
Apoiar um filho que cometeu feminicídio é uma das tarefas mais difíceis que um pai ou mãe pode enfrentar. É importante distinguir entre apoio responsável e cumplicidade encobridora:
| Apoio Responsável | Cumplicidade Encobridora |
| Estar presente emocionalmente | Negar ou minimizar o crime |
| Garantir acesso a defesa jurídica | Tentar subornar ou influenciar o processo |
| Incentivar a responsabilização | Ensinar o filho a mentir ou omitir fatos |
| Promover acompanhamento psicológico | Protegê-lo das consequências de seus atos |
| Reconhecer o sofrimento da vítima | Atacar ou culpar a vítima e sua família |
| Manter vínculo afetivo com limites claros | Tratar o crime como se não tivesse acontecido |
O amor parental genuíno, neste contexto, exige que os pais sejam capazes de dizer ao filho: “Eu te amo. E o que você fez foi errado. Você precisa responder por isso.” Essa combinação — amor e responsabilização — é o que pode, de fato, criar condições para que o adolescente se transforme.
3.2 Como Conversar com Seu Filho
A comunicação com o adolescente neste momento deve ser cuidadosa, honesta e não defensiva. Algumas orientações práticas:
Evite:
Frases que minimizem o crime: “Sei que você não quis fazer isso”, “ela também tinha culpa”
Promessas que não pode cumprir: “Vou tirar você disso”
Comparações que desviem do foco: “Outros jovens fazem coisas piores” Silêncio total sobre o assunto, como se o crime não existisse
Prefira:
Ouvir antes de falar
Nomear o crime com clareza: “Você tirou a vida de uma pessoa”
Expressar amor sem condicionar à negação da realidade: “Eu te amo e estou aqui, e o que você fez foi muito grave”
Perguntar sobre como ele está se sentindo, sem julgamento imediato
Reforçar a importância do acompanhamento psicológico e jurídico
3.3 Sinais de Alerta Durante o Processo
Durante o cumprimento da medida socioeducativa ou no período de espera pelo processo, fique atento a sinais que exigem intervenção imediata:
Ideação suicida ou comportamentos de autolesão
Recusa total em se alimentar ou dormir
Comportamentos agressivos com outros internos ou familiares
Discurso de ódio intensificado contra mulheres
Isolamento extremo e perda de contato com a realidade
Qualquer um desses sinais deve ser comunicado imediatamente à equipe técnica da unidade socioeducativa ou ao profissional de saúde mental responsável pelo acompanhamento.
Parte IV — Cuidando de Você: A Saúde Mental dos Pais
4.1 Você Também Precisa de Apoio
Não é possível apoiar seu filho de forma saudável se você mesmo estiver em colapso. O impacto emocional de descobrir que seu filho cometeu feminicídio é devastador, e tentar enfrentar isso sozinho é não apenas desnecessário, mas contraproducente.
Buscar acompanhamento psicológico individual não é sinal de fraqueza — é um ato de responsabilidade. O psicólogo pode ajudá-lo a processar sentimentos contraditórios, a tomar decisões mais claras e a manter a capacidade de estar presente para seu filho sem se perder no processo.
Grupos de apoio para familiares de jovens em cumprimento de medidas socioeducativas também podem ser recursos valiosos. O contato com outras famílias que vivem situações semelhantes reduz o isolamento e oferece perspectivas que o acompanhamento individual não consegue proporcionar da mesma forma.
4.2 Lidando com a Culpa
É natural que pais se perguntem: “O que eu fiz de errado?” ou “Como eu não vi os sinais?” A culpa parental, neste contexto, é quase universal. Ela pode ser construtiva — quando leva à reflexão honesta sobre padrões familiares que precisam mudar — ou paralisante — quando se torna o centro de toda a energia emocional, impedindo ação.
Algumas perguntas que podem orientar uma reflexão honesta e produtiva:
Havia sinais de comportamento controlador ou violento no relacionamento do meu filho que eu minimizei?
Como eram tratadas as mulheres dentro de casa? Havia modelos de desrespeito ou subordinação?
Meu filho tinha espaço para falar sobre suas emoções, especialmente raiva e frustração?
Havia violência doméstica na família que ele testemunhou ou vivenciou?
Como eu respondia quando ele demonstrava comportamentos de controle ou ciúme excessivo?
Essas perguntas não têm o objetivo de punir os pais, mas de identificar padrões que precisam ser modificados — tanto para o processo de acompanhamento do adolescente quanto para a proteção de outras pessoas no futuro.
4.3 Cuidando do Relacionamento do Casal e da Família
Crises desta magnitude frequentemente colocam relacionamentos conjugais e familiares sob pressão extrema. É comum que casais discordem sobre como lidar com a situação, que irmãos sejam negligenciados em meio ao caos, ou que a família se fragmente em grupos com posições opostas.
Algumas recomendações:
Mantenha comunicação aberta com o cônjuge ou parceiro, mesmo que seja difícil
Não negligencie os outros filhos, que também estão sendo impactados
Estabeleça limites claros com familiares que tentam minimizar o crime ou atacar a vítima
Considere terapia familiar como espaço para processar coletivamente o que aconteceu
Parte V — Orientações para o Adolescente
Esta seção pode ser lida com o adolescente ou entregue a ele, conforme orientação do profissional responsável pelo acompanhamento.
5.1 Uma Palavra Direta a Você
Se você está lendo este texto, provavelmente está em um dos momentos mais difíceis da sua vida. O que você fez tirou a vida de uma pessoa. Isso é irreversível. Não há como desfazer. E você precisará carregar isso pelo resto da vida.
Mas carregar não significa ser destruído por isso. Significa aprender a viver com responsabilidade — e isso é possível, ainda que seja muito difícil.
5.2 Responsabilização: O Que Isso Significa na Prática
Responsabilizar-se não é apenas “pagar pelo que fez” no sentido legal. É um processo interno, profundo e contínuo que envolve:
Reconhecer o que aconteceu sem minimizar ou justificar
Compreender como seus pensamentos, crenças e comportamentos levaram ao crime
Sentir o impacto do que foi feito — na vítima, na família dela, na sua família e em você mesmo
Comprometer-se com a mudança de forma genuína, não apenas para sair mais rápido do sistema
Agir de forma diferente, com respeito às mulheres e a todas as pessoas
Responsabilização não é autopunição. É crescimento. É a única forma de transformar algo irreparável em algo que, ao menos, não se repita.
5.3 Sobre as Emoções que Você Está Sentindo
Você pode estar sentindo raiva, medo, vergonha, culpa, confusão ou até uma estranha ausência de sentimentos. Tudo isso é parte do processo. Não há emoção “certa” ou “errada” para este momento.
O que importa é que você não enfrente isso sozinho. O acompanhamento psicológico não é punição adicional — é um recurso para que você possa atravessar este processo com integridade. Use-o.
5.4 O Que Você Pode Fazer Agora
Mesmo dentro de uma unidade socioeducativa, mesmo no meio do processo legal, existem coisas que você pode fazer:
Participar ativamente dos atendimentos psicológicos e das atividades socioeducativas
Ler sobre violência de gênero, feminicídio e masculinidade — para entender o que aconteceu
Escrever sobre seus pensamentos e sentimentos, se isso ajudar
Manter contato com sua família de forma honesta
Respeitar as mulheres ao seu redor — funcionárias, técnicas, familiares — em cada interação cotidiana
Pensar sobre o tipo de pessoa que você quer ser quando sair daqui
Parte VI — Recursos e Encaminhamentos
6.1 Onde Buscar Apoio Psicológico
| Serviço | O que oferece | Como acessar |
| CAPS (Centro de Atenção
Psicossocial) |
Atendimento em saúde
mental gratuito |
Unidade de saúde mais próxima |
| CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) | Apoio psicossocial e
orientação familiar |
Prefeitura
municipal |
| CREAS (Centro de Referência
Especializado de Assistência Social) |
Atendimento a famílias em situação de violência | Prefeitura
municipal |
| Conselho Tutelar | Orientação sobre direitos do adolescente | Prefeitura
municipal |
| Defensoria Pública | Orientação e defesa jurídica gratuita | Tribunal de Justiça estadual |
| CFP (Conselho Federal de Psicologia) | Indicação de psicólogos e serviços | cfp.org.br |
6.2 Legislação Relevante
Lei nº 8.069/1990 — Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): Define as medidas socioeducativas aplicáveis a adolescentes autores de atos infracionais.
Lei nº 13.104⁄2015 — Lei do Feminicídio: Tipifica o feminicídio como qualificadora do homicídio doloso.
Lei nº 11.340⁄2006 — Lei Maria da Penha: Estabelece mecanismos de proteção à mulher em situação de violência doméstica e familiar.
Lei nº 12.594⁄2012 — SINASE (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo): Regulamenta a execução das medidas socioeducativas destinadas a adolescentes.
6.3 Leituras Recomendadas
“Meninos não Choram” — Reflexões sobre masculinidade tóxica e seus impactos
“Feminicídio: #InvisibilidadeMata” — Jacqueline Pitanguy e Heleieth Saffioti “O Fim do Mundo” — Débora Diniz (sobre feminicídio no Brasil)
Cartilha do SINASE — Disponível no site do Ministério dos Direitos Humanos
Considerações Finais
Este material não oferece respostas fáceis porque não existem respostas fáceis. O feminicídio cometido por um adolescente é uma tragédia que afeta múltiplas famílias, uma comunidade e toda uma sociedade. Não há caminho que apague o que aconteceu.
O que existe é a possibilidade de enfrentar a realidade com honestidade, de responsabilizar sem destruir, de apoiar sem encobrir, de sofrer sem paralisar. Essa é a tarefa que está diante de vocês — e ela é, ao mesmo tempo, a mais difícil e a mais importante que já enfrentaram.
A vida da vítima não pode ser devolvida. Mas a forma como esta família atravessa este processo pode determinar se o adolescente se tornará um homem capaz de respeitar a vida das mulheres — ou se o ciclo de violência continuará.
A escolha, em grande parte, está nas mãos de vocês.
Referências
Este material foi elaborado com base em referências técnicas e científicas da área de psicologia, assistência social e direito. Recomenda-se que sua utilização seja mediada por profissional habilitado, especialmente psicólogo ou assistente social com experiência em violência de gênero e sistema socioeducativo.
- Mamede, R. M., & Henriques, M. B. (2025). Prevenção de Violência Contra Mulheres com Adolescentes: Uma Revisão de Escopo. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva.
https://rbtcc.com.br/RBTCC/article/view/1998/932
2. Stöckl, H., et al. (2014). The global prevalence of intimate partner homicide: a systematic review. The Lancet, 382(9895), 859–865.