As chamadas “canetas emagrecedoras” são medicamentos aplicados por injeção, geralmente na região do abdômen, da coxa ou do braço. Alguns deles foram desenvolvidos para tratar diabetes e outros passaram a ser utilizados, em situações específicas, no tratamento da obesidade. Nos últimos anos, porém, esses medicamentos começaram a ser divulgados nas redes sociais como uma forma rápida de mudar a aparência do corpo.
Essa divulgação tem alcançado adolescentes e jovens. Alguns estudantes podem demonstrar interesse ou até iniciar o uso sem apresentar um problema de saúde que justifique o tratamento. Nesses casos, a motivação costuma estar relacionada à insatisfação com o próprio corpo, à comparação com influenciadores, à pressão dos colegas ou ao desejo de alcançar um padrão de beleza.
Para a escola, o tema exige atenção porque envolve saúde física, saúde emocional, relações sociais e aprendizagem. O objetivo não deve ser vigiar o corpo dos alunos, mas ajudá-los a compreender que medicamentos não são produtos cosméticos e que seu uso precisa de avaliação e acompanhamento de profissionais habilitados.
Por que esses medicamentos reduzem o apetite
Essas canetas atuam em mecanismos do organismo que participam do controle da fome e da saciedade. Em termos simples, podem fazer a pessoa sentir menos fome, ficar satisfeita com uma quantidade menor de comida e permanecer saciada por mais tempo. Também podem influenciar o controle do açúcar no sangue e o funcionamento do estômago.
Esses efeitos explicam por que algumas pessoas emagrecem durante o tratamento. Eles também explicam por que podem surgir efeitos indesejados. Náuseas, vômitos, diarreia, prisão de ventre, dor ou desconforto abdominal são algumas das reações possíveis. Quando são intensos, podem causar fraqueza, desidratação e dificuldade para manter as atividades habituais.
Portanto, o fato de um medicamento diminuir a fome não significa que ele seja seguro para qualquer pessoa que queira perder peso. Também não significa que quanto mais rápida for a perda de peso, melhor será o resultado.
O uso em adolescentes precisa de avaliação individual
Em crianças e adolescentes, o corpo ainda está em crescimento. O peso considerado adequado não depende apenas da aparência ou de uma comparação com outras pessoas. Profissionais de saúde analisam a idade, a altura, o ritmo de crescimento, o desenvolvimento da puberdade, o histórico familiar, os hábitos de vida e a existência de problemas associados ao excesso de peso.
Por isso, um estudante não deve usar uma caneta emagrecedora apenas porque se sente insatisfeito com seu corpo ou porque deseja atingir o padrão apresentado na internet. A indicação de um medicamento depende de uma avaliação completa. Mesmo quando existe excesso de peso, o tratamento não se resume a aplicar uma injeção. Ele pode envolver alimentação, atividade física, sono, acompanhamento emocional e participação da família.
A Sociedade Brasileira de Pediatria destaca que esses medicamentos podem fazer parte do tratamento de alguns adolescentes com obesidade, mas não devem ser usados por jovens com peso adequado apenas para modificar a aparência.
Quais são os riscos do uso por conta própria
O primeiro risco é usar um medicamento sem saber se ele é adequado para aquela pessoa. Cada estudante possui uma história de saúde diferente. Doenças anteriores, outros medicamentos, problemas de alimentação e condições emocionais podem mudar os riscos do tratamento.
A diminuição excessiva da fome também pode levar o adolescente a comer menos do que precisa. Durante a fase de crescimento, isso pode prejudicar o fornecimento de energia e nutrientes importantes. A perda de peso pode incluir músculos, e não apenas gordura. Sem acompanhamento, o estudante pode desenvolver fraqueza, cansaço e uma relação cada vez mais restritiva com a alimentação.
Outro risco é adquirir o produto pela internet ou receber uma caneta de outra pessoa. Podem ocorrer erros na quantidade aplicada, armazenamento inadequado, uso de produtos falsificados ou aplicação sem orientação. O compartilhamento de dispositivos também pode transmitir infecções.
A Anvisa informa que os medicamentos desse grupo estão sujeitos a receita médica com retenção no Brasil. A Agência também alerta que produtos sem registro dificultam a identificação da origem, o acompanhamento de efeitos indesejados e a adoção de medidas de proteção.
A bula da semaglutida, um dos medicamentos dessa categoria, apresenta advertências para pessoas com determinadas doenças, histórico familiar específico e problemas de saúde anteriores. Isso mostra que o medicamento não deve ser escolhido com base em vídeos, depoimentos ou recomendações de pessoas sem formação na área.
A relação com a imagem corporal
A adolescência é uma fase de mudanças físicas e de grande preocupação com a aceitação social. Comentários de colegas, brincadeiras, críticas familiares e imagens publicadas nas redes sociais podem levar o estudante a acreditar que só será valorizado se tiver determinado corpo.
As redes sociais costumam mostrar resultados rápidos e esconder informações importantes: quem indicou o medicamento, se havia acompanhamento, quais foram os efeitos colaterais e se a imagem foi editada. O estudante pode comparar seu corpo real com uma imagem produzida para ser divulgada e concluir, de forma injusta, que há algo errado com ele.
O uso de uma caneta não significa, por si só, que o aluno tenha um transtorno alimentar ou outro problema emocional. No entanto, merece atenção quando aparece junto com jejum frequente, medo intenso de engordar, exercícios em excesso, culpa depois de comer, pesagens repetidas, isolamento ou comentários constantes sobre gordura e aparência.
Nessas situações, dizer que o aluno está apenas sendo “vaidoso” ou “exagerando” pode aumentar o sofrimento. O estudante precisa ser ouvido com respeito e, quando necessário, encaminhado para avaliação de profissionais de saúde.
O que a escola deve observar
A escola não consegue identificar o uso de uma caneta apenas olhando para o estudante. O emagrecimento, por si só, não confirma o uso de medicamento. A atenção deve se concentrar em mudanças no bem-estar e na rotina escolar, como:
•náuseas, vômitos, tontura, fraqueza ou desmaios;
•faltas frequentes ou saídas repetidas da sala;
•dificuldade de concentração e queda repentina no rendimento;
•redução importante da alimentação durante o período escolar;
•preocupação constante com peso, medidas, calorias ou aparência;
•isolamento, irritabilidade ou tristeza persistente;
•comentários sobre comprar, aplicar ou compartilhar medicamentos;
•brincadeiras e agressões relacionadas ao corpo de algum estudante.
Esses sinais não permitem afirmar o que está acontecendo. Eles indicam que o aluno pode estar precisando de cuidado. Em caso de desmaio, vômitos persistentes, dor forte, confusão, fraqueza intensa ou sinais de desidratação, a escola deve seguir seu protocolo de urgência, comunicar os responsáveis e buscar atendimento adequado.
Como conversar com o estudante
A conversa deve ser individual, reservada e acolhedora. O educador pode falar sobre aquilo que observou, sem fazer acusações:
“Percebi que você não está se sentindo bem e tem faltado às aulas. Gostaria de saber como está e se podemos ajudar.”
Se o estudante disser que está usando o medicamento, o educador pode responder:
“Obrigado por confiar em mim. Esse tipo de medicamento precisa de orientação profissional. Vamos procurar um adulto de confiança e pensar em um encaminhamento seguro.”
Não é adequado perguntar quanto o aluno pesa, comentar seu corpo, compará-lo com colegas, exigir que mostre a caneta ou tentar decidir se ele precisa emagrecer. O educador também não deve orientar dose, recomendar marcas ou mandar o estudante interromper o tratamento. Essas decisões cabem aos profissionais responsáveis pelo atendimento.
A escola deve preservar a privacidade do aluno e compartilhar a informação somente com as pessoas necessárias para garantir o cuidado. A comunicação com a família deve seguir as regras da instituição e considerar a idade, a segurança e as necessidades do estudante.
Como trabalhar o tema com as turmas
A prevenção pode ser realizada em diferentes disciplinas. Em Ciências, os estudantes podem aprender que medicamentos têm efeitos desejados e efeitos indesejados. Em Língua Portuguesa e Humanidades, podem analisar propagandas, vídeos de “antes e depois”, interesses comerciais e informações falsas nas redes sociais. Em Educação Física, podem discutir movimento, descanso e saúde sem transformar toda atividade em uma estratégia para emagrecer.
A escola também deve evitar práticas que aumentem a exposição dos alunos, como pesagens coletivas, competições para perder peso, comentários públicos sobre alimentação ou elogios baseados exclusivamente na magreza. Saúde não pode ser apresentada como sinônimo de um único formato corporal.
O mais importante é construir uma cultura escolar em que os estudantes possam falar sobre suas dúvidas sem medo de humilhação. Eles precisam aprender a desconfiar de promessas rápidas, buscar informações confiáveis e pedir ajuda antes de utilizar um medicamento.
Conclusão
O uso estético de canetas emagrecedoras por estudantes sem indicação de saúde deve ser tratado como uma questão de proteção e educação, não como motivo para punição ou constrangimento. Esses medicamentos podem ter utilidade no tratamento de alguns adolescentes, mas não são apropriados para mudar a aparência de qualquer pessoa que esteja insatisfeita com o próprio corpo.
O papel do educador é observar mudanças importantes, acolher o estudante, combater o preconceito relacionado ao peso e encaminhar a situação quando houver risco ou sofrimento. A mensagem central deve ser clara: nenhum padrão de beleza justifica o uso de um medicamento sem avaliação profissional, especialmente durante uma fase de crescimento e desenvolvimento.
Nota: este texto tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica, nutricional ou psicológica. A indicação, a dose e a suspensão de qualquer medicamento devem ser definidas por profissional habilitado.
Referências
[3] Wegovy (semaglutide ) injection: Full Prescribing Information, U.S. Food and Drug Administration
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