Muitos pais se preocupam ao perceber que seus filhos roem as unhas, cutucam a pele ou balançam as pernas de forma repetitiva. Esses comportamentos, frequentemente conhecidos como onicofagia (roer unhas), transtorno de escoriação (cutucar a pele) e estereotipias motoras (como mexer as pernas), são mais comuns do que se imagina e muitas vezes estão ligados a emoções não processadas, como ansiedade, estresse ou até mesmo tédio [1] [2] [3].
O primeiro passo para ajudar é compreender que esses hábitos não são apenas “teimosia” ou falta de vontade de parar. Eles funcionam, muitas vezes, como uma válvula de escape inconsciente para aliviar a tensão emocional [2]. Este guia prático foi desenvolvido para auxiliar famílias a entenderem e lidarem com essas situações, oferecendo estratégias adaptadas para diferentes faixas etárias.
Entendendo os Comportamentos
Para intervir de forma eficaz, é fundamental entender a natureza de cada comportamento e o que ele pode sinalizar sobre o estado emocional da criança ou adolescente.
Roer as Unhas (Onicofagia)
O hábito de roer as unhas geralmente se inicia na infância, por volta dos seis anos de idade, ou no começo da adolescência [1]. Pode ser motivado por diversos fatores, incluindo ansiedade, estresse, tédio, fome, insegurança ou timidez [1]. Muitas vezes, é um ato automático que ocorre quando a criança está concentrada em uma tarefa difícil ou envolvida em uma atividade passiva, como assistir à televisão [1].
Além da questão estética, a onicofagia traz riscos à saúde. Pode causar alterações nasarticulações da mandíbula, danificar a estrutura das unhas, facilitar infecções ao levar germes à boca, desgastar o esmalte dos dentes e até mesmo causar problemas gastrointestinais caso a criança engula pedaços de unha [1].
Cutucar a Pele (Transtorno de Escoriação)
O ato de cutucar a própria pele repetidamente, muitas vezes a ponto de causar lesões, é um comportamento que frequentemente se inicia na adolescência, afetando entre 2% e 3% da população [2]. As pessoas que apresentam esse comportamento podem se sentir tensas ou ansiosas antes de cutucar a pele, encontrando alívio temporário ou satisfação após o ato [2].
Esse comportamento pode ser automático ou consciente, e muitas vezes vem acompanhado de sentimentos de vergonha e constrangimento, levando o indivíduo a tentar esconder as lesões [2]. Os riscos incluem cicatrizes, infecções e, em casos mais graves, infecções na corrente sanguínea [2].
Mexer as Pernas (Estereotipias Motoras)
Movimentos repetitivos, como balançar as pernas, são frequentemente uma forma de autoestimulação. Em situações de ansiedade ou sobrecarga sensorial, esses movimentos ajudam a criança a regular seu sistema nervoso e a encontrar conforto.
Estratégias por Faixa Etária
A abordagem para ajudar a criança deve ser adaptada ao seu nível de desenvolvimento e compreensão. Abaixo, detalhamos estratégias práticas divididas por faixas etárias.
Crianças Pequenas (3 a 6 anos)
Nesta fase, as crianças ainda estão desenvolvendo a capacidade de expressar suas emoções e muitas vezes não têm consciência de seus hábitos. A abordagem deve ser focada no redirecionamento e no conforto, sem repreensões.
Como a família pode ajudar:
Redirecionamento gentil: Quando notar o comportamento, ofereça algo para as mãos da criança, como um brinquedo de apertar, massinha de modelar ou um mordedor de borracha adequado para a idade [1].
Atenção ao ambiente: Observe os momentos em que o comportamento ocorre. Se for durante situações estressantes, tente oferecer conforto físico, como um abraço, e ajude a criança a nomear o que está sentindo (ex: “Você parece assustado com esse barulho”).
Manutenção física: Mantenha as unhas curtas e bem lixadas para diminuir a tentação de roer [1]. No caso de cutucar a pele, mantenha a pele hidratada e as feridinhas limpas e cobertas com curativos coloridos, se necessário.
Rotina previsível: Crianças pequenas se sentem seguras com rotinas bem estabelecidas. Mantenha horários regulares para sono, alimentação e brincadeiras para reduzir a ansiedade geral [3].
Crianças em Idade Escolar (7 a 10 anos)
Nesta idade, as crianças começam a ter mais consciência de si mesmas e de como são vistas pelos outros. Elas podem sentir vergonha de seus hábitos, mas ainda têm dificuldade em controlá-los sozinhas.
Como a família pode ajudar:
Comunicação sem julgamentos: Converse sobre o hábito em momentos tranquilos, não quando a criança estiver no meio do comportamento. Pergunte o que ela sente antes e depois de roer a unha ou cutucar a pele. Valide seus sentimentos e explique que é uma forma do corpo lidar com a tensão [3].
Estratégias de substituição: Ajude a criança a encontrar substitutos aceitáveis. Por exemplo, se ela rói as unhas ao fazer a lição de casa, deixe uma bolinha antiestresse na mesa de estudos [1] [2].
Técnicas de relaxamento simples: Ensine exercícios de respiração profunda (como “cheirar a flor e soprar a vela”) ou incentive atividades relaxantes, como colorir ou ouvir música calma [3].
Incentivo a atividades físicas: Esportes e brincadeiras ativas são excelentes para liberar a tensão acumulada e reduzir os níveis de estresse [1] [3].
Pré-Adolescentes (11 a 13 anos)
A pré-adolescência é marcada por intensas mudanças físicas e emocionais, além do aumento das pressões sociais e escolares. Os comportamentos repetitivos podem se intensificar nesta fase como resposta ao estresse.
Como a família pode ajudar:
Identificação de gatilhos: Trabalhe junto com o pré-adolescente para identificar quais situações desencadeiam o comportamento (provas, conflitos com amigos, tédio). A terapia de reversão de hábitos baseia-se justamente nessa conscientização [2].
Envolvimento na solução: Não imponha regras, mas construa soluções em conjunto. Pergunte: “O que você acha que poderia te ajudar quando sentir vontade de cutucar a pele?”.
Limitação do uso de telas: O excesso de tempo em frente às telas, especialmente redes sociais, pode aumentar significativamente a ansiedade. Estabeleça limites saudáveis e promova momentos de desconexão [3].
Apoio estético positivo: Para quem rói unhas, oferecer um kit de cuidados com as unhas ou pintar as unhas (mesmo com base transparente) pode servir como incentivo para mantê-las intactas.
Adolescentes (14 a 18 anos)
Na adolescência, os jovens têm plena consciência de seus hábitos e podem sofrer com a vergonha e o impacto na autoestima, especialmente no caso de lesões visíveis na pele. O respeito à privacidade e o apoio emocional são cruciais.
Como a família pode ajudar:
Diálogo aberto e respeitoso: Evite críticas, cobranças ou vigilância constante, pois isso apenas aumentará o estresse e, consequentemente, o comportamento. Demonstre apoio incondicional e coloque-se à disposição para ajudar quando ele solicitar.
Apoio profissional: Se o comportamento estiver causando sofrimento significativo, lesões graves ou interferindo na vida social e acadêmica, é fundamental buscar a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra. A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) tem se mostrado muito eficaz no tratamento desses transtornos [2].
Estratégias de enfrentamento autônomas: Incentive o adolescente a desenvolver suas próprias estratégias, como a prática de meditação, yoga, ou o uso de aplicativos de mindfulness. O uso de anéis giratórios (fidget rings) também pode ser uma alternativa discreta para manter as mãos ocupadas.
Validação do sofrimento: Reconheça que parar é difícil. Comemore as pequenas vitórias e ofereça suporte durante as recaídas, lembrando que elas fazem parte do processo de mudança.
Resumo das Estratégias por Faixa Etária
| Faixa
Etária |
Foco Principal | Estratégias Práticas |
| 3 a 6
anos |
Redirecionamento e conforto | Oferecer brinquedos de apertar, manter unhas curtas, estabelecer rotinas previsíveis, não repreender. |
| 7 a 10
anos |
Conscientização e
substituição |
Conversar sem julgamentos, ensinar respiração profunda, incentivar esportes, usar bolinhas antiestresse. |
| 11 a 13
anos |
Identificação de
gatilhos |
Mapear situações estressantes, limitar uso de telas, construir soluções em conjunto, oferecer kits de cuidado. |
| 14 a 18
anos |
Autonomia e apoio
profissional |
Manter diálogo respeitoso, buscar Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), incentivar mindfulness, evitar cobranças. |
Considerações Finais
Ajudar uma criança ou adolescente a superar comportamentos repetitivos focados no corpo exige paciência, empatia e persistência por parte da família. O objetivo principal não deve ser apenas a interrupção do hábito, mas sim o acolhimento emocional e o desenvolvimento de formas mais saudáveis de lidar com o estresse e a ansiedade.
Lembre-se de que, em muitos casos, o apoio de um profissional de saúde mental é o melhor caminho para compreender as causas profundas e estabelecer um plano de tratamento eficaz e duradouro.
Referências
[1] Ministério da Saúde do Brasil. “Hábito de roer as unhas (onicofagia)”. Biblioteca Virtual em Saúde MS. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/habito-de-roer-as unhas-onicofagia/
[2] Phillips, K. A.; Stein, D. J. “Transtorno de escoriação (mania de cutucar a pele)”. Manual MSD Versão Saúde para a Família. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/distúrbios-de-saúde-mental/transtorno obsessivo-compulsivo-e-transtornos-relacionados/transtorno-de-escoriação-mania de-cutucar-a-pele
[3] Fundação Abrinq. “Ansiedade infantil: sintomas, impactos e como apoiar as crianças”. Disponível em: https://fadc.org.br/noticias/ansiedade-infantil